Artigo 73
O Desafio da (Real) Convergência Tecnológica

Caros,

Gostaria de contribuir com vosso portal através do envio de um artigo escrito por mim, já publicado na Computer World.

Grande abraço,
 
Marco A. Filippetti
 
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O Desafio da (Real) Convergência Tecnológica - Marco Filippetti

Muito tem se falado sobre convergência tecnológica. Mas afinal, qual o real significado por trás desse termo, que vem ganhando cada vez mais destaque na mídia? O surgimento de palavras e termos "modistas" não é um fenômeno restrito aos dias atuais. Lembram-se quando o termo "Multimídia" começou a ser popularizado? Bastava um computador possuir uma unidade leitora de CD e uma placa de som para ser taxado de uma poderosa "estação multimídia"! Outro bom exemplo é o termo "Globalização", por alguns anos, o preferido de 11 entre 10 vestibulandos em suas redações. O que se dizer, então, do termo "Realidade Virtual"? Esse foi utilizado à exaustão, muitas vezes em contextos totalmente inconsistentes. A verdade é que nem todos conheciam o real significado destes termos, mas isso, realmente, não importava. Seu uso era perfeitamente justificável – e quase "obrigatório".

Afinal, eram esses os termos do momento! Imagine um vestibulando escrevendo uma redação que não mencionasse, em algum momento, o termo "Globalização"!

Voltando ao nosso assunto... o que seria, então, "convergência tecnológica"? Uma nova denominação para uma prática já há muito existente - a chamada "reinvenção da roda", ou uma definição para uma atividade realmente inovadora? Eu diria, um pouco de ambos.

A tão falada convergência tecnológica vem sendo o objetivo principal de muitas empresas, já há algum tempo. No passado, porém, a escassez de recursos tecnológicos limitava essa convergência à integração dos sistemas computacionais, resultando em uma "pseudo-convergência". Não era possível (ou viável) a integração - convergência - entre determinadas tecnologias, notadamente telecomunicações e tecnologia da informação. No entanto, a pseudo-convergência era uma necessidade real, que abriu uma enorme janela de oportunidade. Através desta janela, algumas empresas identificaram um mercado altamente lucrativo. Foi quando surgiram as primeiras integradoras, empresas que se propunham a oferecer soluções completas para a integração de sistemas computacionais distribuídos. Ainda não era a real convergência tecnológica, mas um grande passo nessa direção começava a ser dado. Poucos anos depois, com o excepcional avanço tecnológico nas áreas de comunicação de dados e teleinformática, a convergência tecnológica total tornou-se, de fato, plausível.

A real convergência tecnológica alia as mais avançadas técnicas de integração de sistemas computacionais distribuídos com os sistemas de telecomunicações – modernos, ou legados. O resultado é a integração total, a convergência real. A inexistência de sistemas isolados. Vídeo, voz e dados, os trê pilares das comunicações modernas, passam a coexistir no mesmo meio, no mesmo ambiente de transporte (ou, usando um jargão da área, no mesmo "tubo").

Não mais é necessária a manutenção de uma rede de telecomunicações em paralelo com uma rede de comunicação de dados. Ambas tecnologias passam a trafegar pelo mesmo meio. A primeira grande vantagem que a convergência total apresenta é a dramática redução nos custos com telecomunicações, uma vez que voz e dados dividem os mesmos circuitos e tecnologias, e assim sendo, impulsos telefônicos simplesmente deixam de existir, reduzindo o custo de uma ligação interurbana ou mesmo internacional ao custo de uma ligação local (ou menos). Para comunicação inter-corporações (ex.: matriz – filiais), a economia pode ser ainda maior. Outra grande vantagem é o barateamento e consequente utilização cada vez maior de sistemas de videoconferência, cujas informações também dividem a mesma rede unificada. A aplicação de tais sistemas reduz em mais de 70% a necessidade de deslocamento de executivos, resultando em uma grande economia para empresas que utilizam tal tecnologia. Essas são apenas algumas das vantagens que a convergência total pode trazer. Na verdade, a real convergência possibilita um número quase infinito de produtos, serviços e benefícios.

Como qualquer tecnologia recente, o desafio da convergência total é grande. Muitas das tecnologias empregadas no processo são ainda pouco conhecidas, outras acabam de ser tecnicamente dominadas, mas ainda são economicamente inviáveis. É o caso da manipulação dos comprimentos de onda dentro de fibras ópticas (DWDM – Dense Wavelenght Division Multiplexing ), dos novos produtos que surgem a cada dia no mercado, dos inúmeros protocolos de comunicação que foram criados ou modificados nestes últimos anos – como o MPLS (Multiprotocol Label Switching) e o IPv6. É preciso manter-se constantemente atualizado – com uma frequência quase diária - na área para ser capaz de oferecer produtos e serviços de convergência que sejam competitivos e que satisfaçam as necessidades do cliente mais exigente - e manter-se atualizado com essa intensidade custa caro. Outro grande problema – talvez o maior – é o complexo processo migratório dos sistemas já implantados (sistemas legados) para o sistema convergente (também conhecido como "Sistema NGN" ou "Sistema de Próxima Geração").

No mercado atual, poucas são as empresas de tecnologia que ousam anunciar o oferecimento de um pacote realmente completo de soluções em convergência tecnológica. E as poucas que o fazem, com raras exceções, ainda não estão realmente preparadas para entregar estes serviços. Por esta ser uma área ainda pouco explorada – e portanto, pouco conhecida - pouquíssimas empresas hoje são privilegiadas com todos os benefícios que essa tecnologia pode oferecer. As poucas empresas que se encontram adiantadas no processo de adoção do Sistema NGN já são capazes de sentir o "peso" da mudança: Sensível redução dos custos com manutenção e operação dos sistemas, disponibilidade para dedicação em tempo integral ao "core business", sensível aumento de receitas e lucros, maior controle operacional, e desenvolvimento de produtos e serviços de melhor qualidade à custos reduzidos. Esses são apenas alguns dos "efeitos colaterais" gerados pela adoção de soluções realmente convergentes.

Hoje, a transmissão de voz ainda responde pela maior fatia da receita das operadoras de telefonia. Projeta-se, no entanto, que dentro de 5 anos, a transmissão de dados já será responsável por mais de 70% da receita obtida. Isso mostra a popularização de tecnologias convergentes como Vo"X" (Vídeo e/ou Voz sobre IP, Frame relay, xDSL, ATM, etc.), QoS (Qualidade de Serviço), áudio e vídeo "streaming", dentre outras.

A pesquisa e o desenvolvimento de novos padrões (como o padrão HDTV – High Definition TeleVision), novas aplicações, e novos protocolos de comunicação visando o aumento de performance das redes de dados – aumento este necessário às novas aplicações – tem acontecido em alta velocidade. Hoje, a atenção das grandes corporações e dos “early adopters” (empresas que estão na dianteira tecnológica) volta-se para um novo protocolo (mais um!) conhecido até o momento como FastTCP. Este protocolo de transporte – derivado do TCP, do conjunto TCP/IP – conseguiu em testes de laboratório uma performance infinitamente superior ao seu “primo”, o TCP, possibilitando a transmissão de vídeo de alta definição em questão de segundos (http://netlab.caltech.edu/pub/papers/fast-030401.pdf). Dentre os “early adopters” que estão testando este protocolo em ambiente de produção, detaca-se a Disney, que está aplicando o mesmo em seus parques temáticos para transmissão de vídeo em tempo real em telões espalhados pelos mesmos. Os testes comprovam: É uma questão de tempo para que mudemos do padrão TCP/IP, para o padrão de próxima geração FastTCP/IPv6. O grande problema, por enquanto, ainda é a qualidade do acesso (enlace) que atende os usuários finais – também conhecida como “última milha” (last mile), que em quase 100% dos casos ainda é feito através de par metálico (cobre). As novas tecnologias requerem fibra óptica.

Acredito que, a partir de 2004, começaremos a presenciar cada vez mais a aplicação de tecnologias verdadeiramente convergentes. E quando essa convergência – a verdadeira! - for uma realidade cotidiana poderemos, finalmente, entender o real significado por trás de termos como Multimídia, Globalização, etc... .